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Ciência e método

Texto integral sobre o método e a transferência para o jogo: prática deliberada, bases analíticas e ligação ao contexto real do jogo.

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Porquê o treino individual?

Se olharmos para os melhores jogadores do mundo, percebemos uma coisa simples: o talento não chega.

Cristiano Ronaldo é talvez o exemplo mais conhecido. Aquilo que o diferenciou de muitos jogadores da sua geração não foi apenas o talento, porque todos treinavam coletivamente nas suas equipas. A diferença esteve também no trabalho extra: cabeceamentos repetidos, remates de várias zonas, livres, ações técnicas específicas e horas dedicadas a transformar dificuldades em pontos fortes.

Este é um princípio fundamental do acompanhamento individual: a evolução exige prática deliberada, repetição com intenção, qualidade e feedback (Ericsson et al., 1993; Ford et al., 2009; Hornig et al., 2016).

A ciência da aprendizagem motora mostra que a aquisição de habilidades depende da frequência, da qualidade e da correção das repetições. Ou seja, o jogador não melhora apenas por “estar em campo”. Melhora quando repete melhor, com mais atenção, mais feedback e mais consciência sobre aquilo que precisa de corrigir (Schmidt & Lee, 2011).

E aqui está uma das grandes diferenças entre o treino coletivo e o acompanhamento individual.

Num treino de equipa, o treinador precisa de olhar para o grupo, preparar comportamentos coletivos, organizar o modelo de jogo e gerir muitos jogadores ao mesmo tempo. Por isso, é natural que um atleta faça poucas repetições específicas do gesto técnico que mais precisa de desenvolver.

Vamos imaginar o remate. Um jogador que treina apenas com a equipa pode realizar poucas situações reais de finalização por sessão. Já numa sessão individual, é possível criar dezenas de repetições focadas, com correção, variação, feedback e progressão. Ao longo de uma época, essa diferença torna-se enorme.

O mesmo acontece com o passe longo, a receção orientada, o uso do pé não dominante, a condução, o drible, os apoios ou a finalização. Se o jogador quase nunca repete com qualidade aquilo que precisa de melhorar, dificilmente vai ganhar confiança para o fazer em jogo.

Estudos com jovens futebolistas mostram também que o treino individualizado pode melhorar indicadores como tempo de reação, coordenação e velocidade de execução, fatores importantes para o rendimento em futebol (Andrzejewski et al., 2011).

Por isso, este trabalho não é apenas “mais um treino”. É um processo onde o jogador pode errar, repetir, corrigir e voltar a tentar, com acompanhamento próximo e objetivos claros.

Porque, no futebol, muitas vezes a diferença não está apenas em quem tem mais talento. Está em quem acumula mais repetições de qualidade, mais feedback, mais detalhe e mais compromisso com a própria evolução.

O treino individual tem transferência para o jogo?

O treino individual só faz sentido se ajudar o jogador a jogar melhor.

Durante muito tempo, defendi — inclusivamente na minha tese de mestrado — que o treino deve aproximar-se da realidade do jogo. O futebol é um ambiente aberto, dinâmico e imprevisível, onde o jogador decide e executa sob pressão, com adversários, colegas, tempo e espaço reduzidos. Por isso, o treino ecológico e contextualizado é fundamental para que exista transferência para o jogo.

Isto significa que o treino da equipa é muito importante. É no contexto coletivo que o jogador aprende a relacionar-se com colegas, adversários, espaço, tempo, pressão e tomada de decisão.

Mas existe uma nuance essencial: o erro não é fazer treino analítico. O erro é achar que o treino analítico, sozinho, garante transferência automática para o jogo.

A revisão sistemática de Bergmann et al. (2021) mostra que abordagens ecológicas e contextualizadas têm suporte no desenvolvimento de competências percetivo-motoras e percetivo-cognitivas no futebol, mas também reconhece que abordagens baseadas em repetição podem melhorar a execução técnica. O ponto crítico é ligar essa melhoria técnica ao contexto real do jogo.

Por exemplo: se um jogador não sabe executar um passe longo com o pé direito ou com o pé esquerdo em contexto controlado, dificilmente vai conseguir fazê-lo em jogo, com pressão, adversários, fadiga e pouco tempo para decidir.

Nesses casos, alguns gestos precisam primeiro de construção técnica: repetição, correção, coordenação, orientação corporal, apoios, superfície de contacto, força aplicada e confiança na execução.

Depois, esse gesto tem de ser transferido progressivamente para situações mais próximas do jogo: com pressão, adversários, tomada de decisão, variabilidade e objetivos reais.

O estudo de Práxedes et al. (2018), por exemplo, mostrou que uma abordagem contextualizada baseada em pedagogia não linear teve impacto positivo no passe, tanto na decisão como na execução, mas não produziu o mesmo efeito no drible. Isto sugere que nem todas as ações técnicas respondem da mesma forma ao mesmo tipo de treino: algumas beneficiam muito do contexto; outras podem precisar de mais construção técnica prévia.

A própria literatura trabalhada na minha tese reforça esta ideia: técnica e tática não devem ser vistas como mundos separados. A técnica está ao serviço da resolução dos problemas do jogo, mas também pode ser um fator limitante daquilo que o jogador consegue decidir e executar (Miguel, 2021).

Por isso, o meu método não escolhe entre “analítico” ou “ecológico”. Usa os dois.

O objetivo não é formar jogadores que apenas executam bem exercícios. É formar jogadores com mais ferramentas técnicas, mais confiança e mais capacidade para resolver problemas dentro do jogo.

Consultar referências bibliográficas

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